“Por enquanto estou inventando a tua presença…”
Incerto
Vendo ele caminhar em minha direção, daquele jeito que só ele anda, e depois chegar perto de mim, e me abraçar, eu penso: por que ele não é solteiro? Por que ele tem que ser casado, ter filhos e uma vida tão complicada? Por que não poderíamos ser só nós dois e mais ninguém?
Ali na Carioca, na Lapa, no Largo do Machado, em qualquer lugar que a gente se encontra, pra mim o mundo pára.
E eu, para onde?
:(
De longe
É estranha a sensação de afastamento. Não sei se sou eu ou se é ele. Mas sinto que estamos ficando distantes. Tenho pensado coisas que só pensei quando tive que me afastar à força. Tudo bem, eu sei que agora toda a minha percepção a respeito dessa relação é diferente agora, e que a consciência de que não basta eu querer pra que dê certo vai fazer com que aconteça, mas me assusta. Eu ainda tenho insistido, pedindo pra ele vir, mas será que ainda vou pedir?
Deus meu, está acontecendo? O que está acontecendo?
:(
A semana
Eu precisava do meu silêncio. Sabe quando a sua cabeça anda confusa, com muita idéia circulando indiscriminadamente, buscando possibilidades de um jeito ou de outro? Quando, por mais que você saiba o que precisa fazer, você ignora todos os sinais, todas as respostas e até as não-respostas, reluta e segue insistindo? Quando só você quer? Quando você nada contra a correnteza?
Eu precisava de alguns dia de silêncio. Ignorei completamente meu e-mail. Via que tinha mensagens esperando para serem lidas, mas eu não queria, mais uma vez, agir emotivamente. Por isso deixei o e-mail de lado e segui pensando.
Agora, e ainda com o propósito, as coisas, pelo menos na minha cabeça, começam a ficar mais claras, a tomar forma, a tomar um caminho. Eu já sei até onde suporto e, francamente, eu não posso mais carregar este pesado fardo.
Gostaria que fosse tudo diferente, mas não dependia só de mim. Tudo (e mais um pouco) que eu podia, eu fiz. Tudo. E não digo que não valeu à pena, porque, apesar de ter recebido pouco, eu me dei o suficiente, me dei por dois, e me senti feliz, intensamente feliz em me dar. Mas há pessoas que não sabem receber. Você oferece, dá, doa, estende a mão, mas se a pessoa não quer receber o que você tem (de melhor e pior, porque ninguém é perfeito) você não pode fazer mais nada, a não ser recolher o braço.
Mas bom é que não tenho mágoa, passa a ser menos dolorido, porque é consciente, e está sendo espontâneo e não traumático.
Foi uma semana difícil, mas lúcida, pois a gente teve um papo muito bom: eu, meu coração e minha cabeça. Estamos bem, pelo menos por enquanto. Espero que continue assim
E, hoje, eu vi uma frase que minha amiga escreveu e que me fez pensar nesse momento, em como a gente pode ver as coisas de um ângulo diferente, se a gente quiser: “Você não gosta de mim, mas eu gosto.”
Eu gosto de mim. Como eu gosto de mim.
Plágio
Nunca pensei que ia usar a frase da concorrência algum dia. Uma vez, no primeiro e-mail 8 anos atrás, ele disse que ela falou que estava cansada de dar murro em ponta de faca.
Eu também cansei.
Mas também pára por aí. Não me compare com aquilo.
Fragmentos – VI
- Sabe do que eu lembrei hoje? Quando a gente se conheceu, quando ele tava indo embora, faltavam poucos dias pra ele viajar, eu fui ao aeroporto com ele remarcar a passagem. Lá, ele fala com ela ao telefone, ele se afasta e acho que eles discutiram, ele estava agitado e, depois que desligou, quando se dirigia ao balcão da companhia aérea, ele olha pra mim e fala ‘quer ir pro Rio comigo?’, como se fosse um pedido de salvamento. Não sei, nem imagino o que falaram, mas eu senti que naquele momento eu era o que ele tinha de bom e, se pudesse, teria mesmo me levado com ele. Acho que foi a única vez que ele realmente me quis ao lado. Outra vez que também me fez pensar que ele realmente gostava de mim foi quando, na nossa última noite juntos, ele chora comigo, um choro calado, me abrançando. Ele gostava, sim, eu podia sentir.
- Mas tanta coisa passou, estamos tão distantes, temos realidades tão diferentes, vontades diferentes que… eu já não acredito mais se ele diz que me ama, eu já não iria mais pra lá só por causa dele, como teria ido em 2006, porque eu não acredito mais nele. Ele não viria pra cá por mim porque acho que não sou o sacrifício que vale à pena pra ele. Ele não faria isso.
- Eu acredito no que eu sinto, mas o que eu sinto não é suficiente para sustentar essa relação. Eu não acredito que, se estivéssemos juntos, ele seria fiel, porque essa não é uma característica dele. Ele é um cara bonito, inteligente, interessante e viaja por esse país o tempo todo e conhece mulheres de todas as cores, bonitas e interessantes também. E ele tem um jeito doce, carinha de quem precisa de carinho, todo sedutor quando quer… Você acha que eu acredito que, agora, nessa última viagem, em que ele ficou dois meses em São Paulo, ele não ficou com ninguém? Tenho certeza que sim e a minha maldita intuição também me diz isso, não é paranóia. Eu sei que ficar com ele não foi exclusividade minha. Talvez eu tenha sido o caso mais longo, talvez até o mais intenso, mas não o único. Só que eu soube foram três. Imagine os que ele ocultou (porque isso ele não falaria jamais). Os homens não são fiéis – muitos nem leais são – e ele não seria exceção. Se estivéssemos juntos e ele não tivesse essa vida viajante, essa vida tão cheia de gente nova, bonita e interessante, talvez eu me sentisse mais segura e tranquila. Mas não assim. E eu não gostaria de viver neurótica, cheia de ciúmes.
- A realidade é que, agora, eu já começo a ver uma luz no final do túnel. E não é esperança de uma vida a dois. Eu vejo que isso está mais e mais distante. É tão difícil pra gente até se falar ao telefone que os mínimos fios de esperança se desfazem a cada dia. Eu não posso nem falar com ele! Nós não temos nada! Eu não tenho nada. Não o tenho, não conheço nem sou amiga dos amigos dele, não seria aprovada pelos filhos dele, pelas irmãs, não vou ao cinema com ele, não vou ao teatro com ele, não vou dançar com ele, não passo domingos com ele, não acordo tarde com ele, não tenho nada nem com, nem dele. Nem fotos, que eu tanto peço, eu recebo dele. Parece que é uma forma de se proteger, sei lá.
- Eu preciso conversar com ele. Tenho tentado há dias e não tenho conseguido. Preciso dizer o que me sufoca, mas também o que me liberta. Eu preciso me libertar.
- Quando você me procurou a primeira vez, eu te disse que na maioria das vezes as respostas estão dentro da gente. Você estava angustiada e naquele momento era difícil enxergar qualquer coisa. Mas as respostas estão lá, a gente apenas se recusa a vê-las. Não que você não precisasse de ajuda e devesse seguir sozinha, com suas próprias pernas. Foi bom, é bom você se abrir. Mas só a partir do momento que você percebe que as coisas não estão bem e DECIDE mudar essa situação, é que você começa a ver tudo aquilo que estava obscuro, tudo aquilo que você se negava a reconhecer, pois achava que era menos dolorido viver à base de uma fantasia, de um sonho. O que você resolver fazer com a sua vida, você deve estar ciente de que foi decisão sua, não minha, não de seus amigos, de sua família, nem dele. Se decidir ficar do jeito que está, se decidir romper com tudo e seguir com sua nova vida depois dele. Quem sabe o melhor pra você é você mesma. É difícil tomar decisões, a gente reluta, mas depois que tomamos coragem, e as decisões acontecem, vem o alívio, apesar de que algumas decisões dóem e nos fazem sofrer. Mas tudo tem um tempo, inclusive a dor. Ela passa. E, além do mais, uma pessoa como você merece, no mínimo, paz.
- Minha cabeça fervilha. Há dias minha cabeça fervilha.
- E não é pra menos. É difícil. Mas você está bem melhor, mais lúcida, menos angustiada, menos triste.
- Mas eu tô triste.
- É que quando se aproxima o momento de tomarmos decisões, boas ou ruins, dependendo do lado em que a gente está, e não sabe se vai fazer a coisa certa, é natural sentir-se assim. A gente sempre perde alguma coisa quando escolhe, não é verdade?
- É…
- Quando for deitar, leve seus pensamentos para os melhores lugares, os melhores momentos e procure pensar de que tem alguém muito especial que gosta muito de você e não suportaria vê-la perdendo o seu brilho, a sua alegria e precisa que você esteja bem, sempre bem: você mesma.
- Pode ser que eu dê um tempo daqui. É errado? Você ficaria chateada?
- Você não precisa de mim. Você está bem. Mas quando quiser voltar, sempre que precisar, estou de portas e coração abertos.
-Só pra conversar…
- Sou só ouvidos.
Fragmentos – V
- Como você tá?
- Mais tranquila. Talvez porque a dor começou a passar. Aquela angústia está mais distante e eu tô começando a pensar mais racionalmente. Essa viagem que eu fiz, esse confronto pelo qual eu quis passar, foi a coisa mais certa. Eu precisava estar mais intensamente com ele pra poder sentir como tudo ficaria depois. Como a gente fez antes, em tantas idas e vindas por aí, que a gente se encontrava e depois, na volta, eu sentia que estava perdendo tudo. Ou mais ou menos assim, eu lutava pra chegar no topo da montanha, mas quando chegava, ou seja, na hora que seria de voltar pra casa feliz porque tinha atingido o meu objetivo, descobria que continuava muito, muito longe do cume. Era uma falsa alegria, que me contentava por pouco tempo, aliviava, mas depois tudo voltava. Passei por isso novamente esses dias, disse a ele o que sentia, o que pensava, mas ele não me disse nada, a não ser que tinha saudade também. Também é uma palavra que me mata, sabe? Eu te amo. Também. Tô com saudade. Também. Também, pra mim, dependendo da situação, me parece um complemento do tipo ‘vou dizer também porque me livro de mais encargos e assim tudo fica bem e ainda saio bonito na foto’.
- Sobre seus amigos…
- Melhores, impossíveis. São pessoas que me conhecem há muitos anos e gostam verdadeiramente de mim, do jeito que eu sou.
- Eles te responderam? Foi por e-mail que você enviou?
- Foi. Da mesma forma que eu enviei para o amigo dele, só que ao invés dele falar de mim, pedi que falasse sobre o Zé, como ele o via como amigo, pessoa, como gente, sabe? E pedi, já que ele conhece essa história, que ele me dissesse como ele via tudo isso. Mas ele não respondeu até agora. Acho que não vou mais esperar. Ele me disse que o Ivan demora mesmo a responder. Ivan é o nome dele. Acho que ele não respondeu porque também é amigo da outra lá. Sei lá, talvez meio saia-justa pra ele, falar contra ou a favor. Pra mim, tanto faz agora, porque eu tenho os meus amigos, que me responderam prontamente.
- Você não precisa me falar o que eles disseram, a não ser que você queira, fica a seu critério. Mas o que eles falaram te provocou alguma coisa?
- Como dizer… Eu não diria que o que eles me escreveram provocou uma revolução em mim e em tudo o que eu penso, porque meus pensamentos a respeito dessa história mudaram três anos atrás, quando ele escolheu me deixar pra trás. Quando ele teve a chance de escolher a primeira vez, ele não escolheu ficar comigo, e sim fazer um test-drive. Eu tô banalizando a coisa falando em test-drive, mas foi exatamente isso. E a segunda vez ele escolheu voltar pra ela. Mas eles falaram coisas que, mesmo sabendo, eu me nego a reconhecer. E são coisas que todo mundo vê, porque estão vendo do lado de fora. De dentro é muito mais difícil. Ontem mesmo eu me peguei conversando com uma amiga numa situação semelhante e falei pra ela as coisas que eles me falaram, mas não foi porque eles me falaram, porque eu só me toquei disso no final da conversa. Acho que são coisas que estão no meu inconsciente. Realidades que estão lá, mas eu escondo tudo pra não ver e não me questionar a respeito, porque tenho medo de perder aquilo que a gente tem.
- E o que vocês dois têm?
- A nossa história.
- O que vocês têm de fato?
Silêncio.
- O que vocês realmente têm?
- Nada.
- Nada?
- Nada. A gente se conheceu, se curtiu, teve encontros esporádicos, intensos, mas esporádicos, muitos momentos bacanas, divertidos, apaixonados, lugares diferentes, cidades diferentes…
- Se você fosse somar isso no calendário, em dias corridos, quantos tempo vocês ficaram juntos?
- Tirando o tempo que ele estava aqui quando a gente se conheceu, acho que não chega a dois meses, assim, se vendo todo dia, somando tudo.
- Quanto tempo tem essa história mesmo? 8 anos? Você falou em 2001?
- Sim, 8 anos. Teve aquele tempo de interrupção, mas ele sempre esteve aqui dentro.
- Então imagine que você tem uma expectativa de vida de 80 anos. Eu diria que você dedicou 1/10 da sua vida a uma pessoa que nunca fez nada por você. Ou fez algum sacrifício alguma vez? Sacrifício de verdade, não uma desculpa esfarrapada pra te encontrar algumas horas. Fez algo por você, algo que mostrasse que ele te amava ao menos próximo da intensidade que você o ama?
- Uma vez, duas, ele veio de Boa Vista pra cá. Ele trocou a passagem.
- Boa Vista é aqui do lado. Alguma vez ele veio do Rio pra te ver, da mesma forma como você saiu tantas vezes daqui, como fez agora mesmo largando trabalho, seu cachorro velhinho, suas coisas, questionamentos da família, dos amigos?
- Não.
- Quando ele deixou a mulher a primeira vez, não que isso seja de se orgulhar, mas foi por sua causa?
- Não.
- A quantas festas de casamento, aniversários de amigos vocês foram juntos, quantos domingos inteiros dedicados um ao outro vocês passaram? Algum dia dos namorados? Algum natal em família? Alguma queima de fogos no reveillon?
- Um aniversário de uma amiga na praia do Flamengo quando ele estava separado.
- Conhece os amigos dele? É amiga dos amigos dele?
- Não.
- Pode falar com ele no telefone a qualquer hora, de madrugada, de manhã cedo, quando sente saudade, ou dizer só um bom dia ao acordar?
- Não.
- Não vou perguntar se conhece os filhos dele porque você me contou da outra vez que ele não te levava junto quando ia encontrar com eles.
- Não.
- O que você tem medo de perder?
- Ele, a nossa relação…
- Mas você o tem?
- Não.
- E como você chama a relação que você tem com ele, que você tinha, o que é hoje?
- Não sei, porque não sou mulher, não sou namorada, não me considero também amante, porque não existe frequência. Eu sou só um caso dele?
- Não sei. Só VOCÊ sabe.
- Acho que sou um caso dele.
- Só mais uma pergunta por hoje: você acredita que ele ama você?
Silêncio.
Fragmentos – IV
- Ficaram sem se falar, cada um com seus motivos. Suas únicas palavras por e-mail demonstravam a raiva que ele sentiu, pois ficou puto com a atitude descompensada dela. Isso era início de dezembro. Suspeitas de encontros com a ogra ex, brigas por causa da anta jornalista nordestina, brigas, raiva, silêncio. Então passam os dias, chega o final do ano e ela decide ir pro Rio, tentar uma reconciliação. Ia aproveitar também pra fazer um concurso público lá, tentar garantir um emprego, afinal, eles tinham planos e não era aquela briguinha que ia mudar tudo. Natal, Ano Novo, e-mails frios… O ano começa, ela liga, pergunta onde fica a empresa, diz que está indo pra lá fazer o concurso e ele nem aí. Desligam. Dias depois, aproximadamente 10 dias antes de ela viajar, ela vê recados da Fiona na página dele e um recado apaixonado dele pra ela. Então ela liga na mesma hora pra ele e fala o que viu, pergunta se eles tinham voltado e, friamente, ele diz que sim. Pergunta a ele se era isso mesmo o que ele queria e ele diz solenemente que sim, que era isso que ele queria. Depois manda um e-mail explicando a volta, que a ex tinha ido lá na casa dele fazer não sei quê e viu as coisas que a Kátia tinha enviado em novembro: e-mails, cd’s, fotos, ficou puta, foi uma lavação de roupa suja, mas no final de tudo, eles decidiram voltar. E disse, encerrando, vamos tentar ser felizes. Quem? Ser o quê? E a Kátia? A Kátia se fudeu, desculpe a expressão. De passagem marcada e em cacos, não ia voltar atrás. Foi pro Rio e com o apoio de três grandes amigos, que estavam lá, aguentou firme e voltou decidida a deixar essa história pra trás. E assim o fez. Ela apagou o Zé da cabeça. Tirou da frente tudo o que podia fazê-la lembrar-se dele. Foi duro, foi difícil, mas ela conseguiu superar toda a dor, mágoa, decepção e seguiu em frente. Sabe, alguns amigos soltaram frases de efeito do tipo ‘você pulou uma fogueira e não sabia’, ou ‘há males que vem para o bem’, ‘antes só do que mal acompanhada’, todas super batidas, mas a tentativa era fazê-la sentir-se aliviada. Mas a mais legal de todas, foi a que ela mesma proferiu para uma amiga, mesmo querendo acreditar que nunca mais nada vida fosse vê-lo (mas no fundo ela achava que ia encontrá-lo novamente um dia – o mundo é tão pequeno e gira tanto – dali a um ou dez anos): ‘dor de barriga não dá só uma vez’.
- Por que você acha que ela pensou isso?
- Acho que, primeiramente, porque ela sentia muita raiva e sabia que o dia em que se encontrassem rolaria algo novamente. Talvez quisesse provar pra ele que não tinha acabado e fazê-lo sentir a culpa por ter feito que fez. Ele foi cruel com ela, foi injusto, não deu a mínima para os sentimentos dela. Pisou. Não levou em consideração os anos que ela se dedicou a ele, se fechando para outros relacionamentos e apostando tudo o que tinha nessa relação. Ele foi canalha. Mas acho que, no fundo, ela tinha esperança de essa relação, essa chama, reacendesse.
- Bom, se ele não deu a mínima para os sentimentos da mulher enquanto estava com você, mesmo não tendo se separado por sua causa, e você sabe que houve outras mulheres, você acha que ele se importaria com os seus?
Silêncio.
- Você acha que a briga de vocês foi motivo para eles voltarem, uma vez que vocês estavam cheios de planos? Por que você acha que ele voltou com ela?
- Não. Não acho que tenha sido motivo. Porque, se ele gostasse realmente de mim, me amasse, teríamos conversado. Por isso que eu acho que eles já estavam se encontrando antes de brigarmos. Ninguém volta do nada. Ela descobre tudo aquilo e tudo fica bem? Sabe, eu um dia acreditei realmente que ele me amava, por todas as vezes que disse, porque sempre me ligava, onde quer que estivesse, pelo que éramos quando estávamos juntos. Mas acho que ele nunca me amou mesmo, e se pudesse mensurar isso, botar na balança, a ex levava vantagem, por morar na mesma cidade, pelos filhos que tem com ele, por ser quem resolve as coisas em casa, porque não desiste, e apesar de não ser o que acha que é, bonita (parece a Fiona de longe – eu morro de rir quando vejo uma foto dela sentada num pufe azul – parece que está sentada no trono, aqueeele trono - vestida numa mortalha preta – é de um mal gosto pra roupas – o orkut era ótimo, antes de ser bloqueado) um poço de cultura e intelectualidade (talvez na tentativa de compensar alguma coisa que não teve na vida), discursa sobre física quântica que é uma maravilha, mas desconhece os poderes do sabão em pó no sutiã, ela está na vantagem. Enfim, eu vejo essa criatura estranha, que também me é estranha, dessa forma. Você pode até pensar, mas não me dizer, que isto é despeito. Não é, não. Eu até tenho todo o direito do despeito, por ter sido preterida. Mas não é, não. Se você pudesse ver o que eu já vi e ouvir o que eu já ouvi… Nunca tive nada contra ela, até porque ela foi tão vítima quanto eu. Mas ela falou absurdos de mim, que ele me bancava, pagava minhas contas e por isso vivia sem dinheiro. Prefiro ficar calada, o que não quer dizer que esteja consetindo. É que é perda de tempo responder a uma pessoa louca. Mas, respondendo a sua pergunta, ele voltou pra ela porque nunca deixou de gostar dela. Tudo o que eu vejo nela, em todos os sentidos, ele não vê, até porque estamos em diferentes campos de percepção.
- Então ali acabou. Mas eles voltaram a se ver então?
- Foi engraçado como voltaram a se falar. O motivo foi trabalho. Uma necessidade de trabalho fez eles voltarem a se falar, descompromissadamente. Setembro de 2007, quase dois anos depois. Primeiro formalmente, depois foram relaxando, e um dia ele solta que desde junho vinha lembrando, pensando nela. Ela não quis se empolgar. Em janeiro, ela foi pro Rio, de férias e eles marcaram de se ver, mas ele enrolou tanto, que só conseguiram se ver às vésperas de ela voltar pra Manaus. Foi uma meia hora de conversa no Largo do Machado, uma conversa nada a ver, sabe? Sabe quando você está diante de uma pessoa e não sabe o que falar? Falam somente de amenidades? Pois é, foi isso. Aí ela volta, gelada, atônita, confusa. Ele disse que sentiu o mesmo. O ano transcorreu, 2008, todo e eles continuaram as conversas virtuais, via e-mail ou msn e em novembro ela vai novamente pro Rio. A desculpa era comprar roupas e bijuterias pra vender, mas ela mal podia esperar pra encontrar com ele.
- E como foi dessa vez?
- Primeiro encontro? Tentaram ser leves, mas a cerveja pesou um pouco e ela acabou soltando os cachorros. Disse de toda a raiva e mágoa e dor que ela sentiu. Disse tudo o que ele a fez passar. Chorou, chorou, chorou. Foi quase uma catarse, porque quando tudo terminou, quando tudo aconteceu, ela não tinha conseguido chorar de tanto ódio, tanta coisa ruim que passou por dentro do coração dela. Ela nunca tinha sentido nada tão forte negativamente. E naquele momento ela chorou. Ele chorou. Houve declarações de todos os lados, pedidos de desculpas, abraços, beijos… Não me olhe assim…
- E você não entende como ela, a ex, o perdoou?
Silêncio.
- Ele tem um jeito muito doce, um olharzinho meio caidinho, derrete a gente. A voz mansa.
- Sei…
- Acabou que nos vimos várias vezes, sempre que era possível e eu descobri que nunca tinha deixado de gostar dele. Nunca tinha deixado de amá-lo. O que fiz foi pegar toda aquela cinza e empurrar pra debaixo do tapete. Ignorava toda vez que ele aparecia no meu pensamento, desviava a atenção. De repente renasceu. E foi muito bacana, todos os encontros foram bacanas, voltei apaixonadinha de novo. E agora, em maio, fiquei uma semana direto com ele, todos os dias, dormindo e acordando juntos, esperando ele chegar todos os dias… Essa convivência diária, ainda que curta, me deixou desestruturada na volta, porque voltei muito mal, sentindo que talvez ali, aqueles momentos fossem os últimos, porque tentei conversar, tentei ouvir alguma coisa dele, forcei uma conversa, mas ele continua exatamente como anos atrás: perdido, não-resolvido. Pelo menos é o que me diz, não sabe o que fazer, dar tempo pra ver como as coisas acontecem… Que diabos de coisas que nunca acontecem? E ainda acho que depois de forçar essa conversa, depois que voltei ele se afastou, fugiu de mim, ignorou meus emails, mensagens… Brigamos esses dias, por mail, pra variar. Isso é forma de brigar de gente normal??? Me diz??? Um relacionamento desses pode dar certo?
- Fez o que eu te sugeri?
- Fiz. Tive resposta de três pessoas. Só o amigo dele que não respondeu.
- E então, o que eles viram?
- Pode ficar pra próxima? Não, eles não disseram isso… (risos). Eu que tô perguntando. Tá acabando o meu tempo…
- Claro!
Fragmentos – III
- Como você está? Tudo bem?
- Esses dias têm sido muito ruins. Tenho tido a impressão que, desde que eu voltei de São Paulo e que forcei uma conversa lá no último dia, ele tem me evitado. Quando eu cheguei, ele não ligou, não mandou e-mail, nada. EU liguei, eu mandei um e-mail dizendo que estava com saudade e triste. Ele ainda estava lá, ficou por mais uma semana em São Paulo. Diferentemente de quando voltei do Rio em novembro, quando eu recebia e-mails todos os dias, e-mails falando de saudade, dessa vez foi diferente. Até demorar pra responder ele demorou, mesmo já não estando trabalhando. Mandei e-mail pra ele dizendo que ele está distante, parece que me evita… Sei lá, sabe, é o que eu sinto. Sei que a intuição não é uma ciência exata, mas eu não sou tola, e pra quem já teve outro tratamento, eu estou sentindo isso. Ele tá longe de mim, não só fisicamente… E eu tô muito, muito triste por isso. E essa tristeza só me consome e me faz mal, e ele não faz nada pra isso mudar.
- Tente não perder a razão, tente manter a calma. Vamos voltar à nossa história? Você se importa?
- Não, claro que não… Bom, eles voltaram a se falar depois da separação, falar com mais frequência, e agora não precisava ser às escondidas, porque ele estava livre. Livre daquela mulher horrorosa – e não é despeito, não – é uma criatura estranha, em vários sentidos. Em novembro, ele vai pra Boa Vista fazer um trabalho e a Kátia arruma um jeito de ir pra lá ficar com ele. Foi legal, até ela resolver fuçar no computador dele e descobrir uma carta que ele havia mandado pra um amigo, onde ele copiava uns e-mails trocados com a ex, e onde eles tentavam justificar o que levou cada um a separação, declarações de amor atrasadas, e isso a deixou confusa e triste – confusa porque estava com um cara que não tinha certeza se amava, porque não sabia o que ele ainda nutria pela ex, porque achava que estava sendo um consolo, um porto seguro no meio daquela tormenta pela qual ele tinha passado, e triste por tudo isso. Acabou revelando a ele, não dava pra esconder, acho que ele ficou chateado, mas acabaram se entendendo. Aí ela voltou pra casa e em seguida ele veio pra cá também, ficou um dia com ela, e foi quando conheceu uma das melhores amigas dela, Mariana. Daí em diante, eles retomaram o relacionamento, agora aberto, entre aspas, e eu explico melhor mais à frente.
- No ano seguinte, 2005, ela, louca de saudade, arruma um jeito de ir pro Rio: como estava desempregada, resolve ir comprar roupas e bijuterias pra vender aqui. Mesmo sem grana, compruo passagem parcelada, as mercadorias no cartão, vendou tudo e pagou as despesas. Hotel ela não ia pagar, foi ficou dele. Ele tava morando em Botafogo, e foi legal, ele foi buscá-la no aeroporto, deixou em casa, deu as dicas da área. Mais feliz era impossível ela estar. Mas, como ele estava trabalhando e o diabo não tenta só uma vez, ela foi novamente fuçar as coisas e pegou uma conversa dele recente com um amigo, falando de uma baiana que tinha ficado com ele mais ou menos um mês antes, numa conversa bem de homem pra homem, sabe? Ela quase morreu de raiva, porque ele dizia sempre que estava quieto, ligava dos lugares dizendo-se comportado, não tinha ficado com ninguém – ou seja, um santo – e aí ela leu aquilo. Quem não trai não fica dizendo que não traiu sem ser perguntado. Outra briga, novo desentendimento. Ela reconhecia que tinha feito algo muito feio e sabia, no fundo, que tinha perdido parte da confiança que ele depositava nela. Mesmo assim, apesar de todos esses tropeços, foi muito bacana.
- Um dia, numa conversa ao telefone, ele disse que tinha conversado com um amigo, Kim, eu acho, dizendo que falaram sobre uma viagem pra Margarita, e que ele ia falar com a “namorada” dele pra ver os custos da viagem porque ela já tinha ido. Ela, a namorada, era eu. Ou melhor, a Kátia. Ela ouviu aquilo e não acreditou e perguntou se era namorada dele. Acho que no fundo ela forçou aquilo, queria ouvir porque sua carência era mais forte que um touro. Tipo, qual das namoradas?, e ele falou que só tinha uma. Eu? Quem mais? A glória, né, pra uma mulher apaixonada… Ela foi fundo nisso, acreditou e encarou que isso era fato. E assim foram, até um outra viagem em novembro do mesmo ano, mas desta vez tudo estava estranho. A essa altura, a Mariana, amiga dela, estava dividindo a casa com ele no Rio, ela tinha ido tentar a vida lá no meio do cinema e ele deu essa força. Amiga total, mas a insegurança veio e resolveu dividir o quarto com ela. Bateu, é claro, uma neura, afinal, um homem e uma mulher solteiros dividindo sozinhos o mesmo teto? Que mulher não fica insegura? Mas pra sorte dela, ela tinha uma amiga verdadeira e que a acompanha até hoje. Mas, voltando, dessa vez foi tudo estranho. Ele estava, sim, distante. Pareciam dois desconhecidos, mal se falavam. Transavam, não se amavam. Ele, né? Por dentro, ela sofria muito… Você acredita que uma noite, depois de transarem, em que ela perguntou se ele tinha ficado com outras mulheres, ele chegou ao absurdo de dizer pra ela pra não pensar, não levar em consideração isso, que era só sexo? Ou seja, transei, faz parte, mas não eu não te devo satisfação sobre isso. Foi isso que ela entendeu. Poxa! Quanta insensibilidade por parte de quem está com você, sabendo o quando você gosta e sofre… E quando eu disse uma relação aberta no começo, entre aspas, agora explico: ele nunca a assumiu, mesmo quando ela estava no Rio. Nunca trouxe seus filhos em casa, saía pra passear com eles mas não a levava nem como amiga, e algumas noites que saíram, ficava longe boa parte da noite, só se aproximando no final, quando já estava meio alto. Às vezes andava na frente dela, e não ao seu lado, sem sequer segurar a sua mão. Fora uma noite em que ela ligou e ele atendeu estranho, quando estava na casa da ex pra cuidar dos filhos, parecia disfarçar que falava com alguém com quem tinha intimidade, ou era namorada… Acho que ele nunca pensou nela como namorada. Nunca.
- Mas aí ela voltou pra Manaus, ele foi pra Boa Vista fazer um trabalho, depois foi pra Brasília ver a irmã, e uma noite, alto de cerveja, ligou chamando ela pra ir pra Brasília, ficar com ele na casa da irmã. Ela falou que não ia por causa de todas as incertezas que rondavam a cabeça dela, questões de sentimentos e que não acreditava que ele gostasse dela. Dois dias antes, ela tinha colocado tudo, e-mails, fotos, discos e mandado pra casa dele no Rio. Ele não sabia. Minutos depois do telefonema, ele manda uma mensagem dizendo ‘caralho, quando é que você vai acreditar que eu te amo?’ Ela pensou: ‘talvez nunca, apesar de te amar tanto’. Então ele chegou em Manaus numa quinta, depois que acabou o trabalho de Boa Vista. No começo meio estranhos (ainda estranhos), ficaram juntos e no sábado ele foi embora pro Rio e lá encontrou tudo. Mandou e-mail dizendo que não teve coragem de ver tudo e estava muito triste com aquilo tudo. Conversaram muito por e-mail e foram se acertando aos poucos novamente, e se acertando, até chegarem ao ponto de ele a convidar pra ir pra lá, morar lá, a princípio não com ele, mas dividindo um apartamento com a Mariana, enquanto eles namorariam pra ‘testar’ estar mais junto, mais próximo, sentir como tudo se desenrolaria. Disse que ia rolar um trabalho, tentaria colocá-la pra trabalhar junto, enfim, planos que viraram a cabeça dela, que preparou o espírito da família pra ir embora e já estava vendo tudo pra viajar, transportadora, como arrumar um lugar pro cachorro, enfim, tudo. Até que uma coincidência a leva a um blog de uma jornalista piauiense e vê fotos dele, fotos, inclusive, íntimas. Caso que aconteceu em 2003 e, pra piorar, descobriu também que ela tinha acabado de estar na casa dele. Ela, a jornalista, fez um poema em que ela descrevia a casa dele em detalhes, da entrada da rua à foto da filha na parede. Foi um porrada tão grande que ela se descontrolou. Porque descobriu que, ao mesmo tempo em que ela tinha um relacionamento com ele, havia outra por aí, se não outras, que com certeza passaram pela mão dele. Ela mandou um milhão de e-mails numa única noite, trocou de nome, fez um estardalhaço, ligou e ele não atendeu… Esqueci de falar que, dias antes, ela ligava, mandava mensagens, e-mails e ele não retornava. Até que respondeu por e-mail dizendo que estava off porque precisava de um tempo. E pra completar, essa descoberta. Ela pirou, descompensou completamente. Carência, inseguraça, descoberta de infidelidade… Mas o que ela poderia esperar da relação com um cara que começou justamente com infidelidade. Foi o começo do fim…
Fragmentos – II
- Como você está se sentindo hoje?
- Ainda triste.
- Pensou no que conversamos?
- Não tenho pensado em outra coisa.
- Quer me contar?
- A história é longa. Vou tentar te dar uma idéia geral, tentar resumir. Às vezes é meio difícil, porque tanta coisa aconteceu nesses anos todos…
- Olhe de fora… Não tenho pressa.
- Ok. Vou tentar. Em 2001, um amigo de uma garota… Garota… (risos…) Um amigo de uma garota de 27 anos a chamou para ir a uma festa num hotel. Era uma festa de uma equipe de cinema. Sempre havia festas, festas muito animadas. Ela foi com outra amiga e dançou a noite toda. Conheceu várias pessoas, gente da equipe, atores… Conheceu também um carinha e acabaram rolando uns beijinhos e só. A festa foi ótima. Entre essas pessoas que ela conheceu, havia um produtor. Era um cara bonito, uma carinha boa, sabe? Não devem ter trocado meia dúzia de palavras, pois foram apresentados e foi só aquele “oi, tudo bem, como vai?”.
- Um ou dois dias depois, a amiga dela, que tinha ficado com o assistente desse produtor, falou que ia sair com esse assistente e chamou a garota, e falou também que o produtor também ia, aquele que ela tinha conhecido e trocado a meia-dúzia de palavras. Ia ser no fim de semana, mas acabou que o fim de semana chegou e não rolou.
- Na semana seguinte, eles marcam novamente e elas vão. Eles iam pra uma festa de boi no hotel e depois encontrariam com as garotas num bar de rock. Eles chegam e os casais se dividem. Um beija e outro bate-papo. A Kátia, a primeira garota, passa a noite conversando e conhecendo o produtor, Zé, e fica encantada, mas no meio da noite, a amiga revela que ele é casado. Ela balança e resolve então ficar na sua. Mas o papo fica tão bom e a música ajuda que, quando ela menos espera, ganha um beijo daqueles, sabe? Um beijo de cinema. Foi uma noite inesquecível para ela, que levou pra casa, às 6 da manhã, uma música na cabeça e essa música seria a música que marcou essa relação.
- Que música era?
- Again, do Lenny Kravitz. Essa música fala algo mais ou menos assim: é como se um tivesse procurado pelo outro a vida toda, por onde essa pessoa andava… E agora que eles tinham se encontrado, ele se perguntava se eles se veriam novamente… É linda. E marcou essa relação. Nossa! Eles se beijavam no meio do bar como se não houvesse ninguém por perto. O engraçado é que não tinha sido nada falado, combinado, mas depois que ele foi embora, logo depois, uns dias depois, ele ligou pra ela dizendo que a música tinha tocado. Um pouco antes de ele ir embora, ela ouviu essa música e lembrou do dia do bar e ficou pensando nele. Pra ela, essa foi A MÚSICA. Pra ele, parece que também, porque ele lhe contou de vários lugares onde ele ia e a música tocava. Estava no carro e a música tocava. Saindo do supermercado e a música tocava. Logo que ele chegou na sua cidade, ligou acho que do aeroporto, dizendo que tinha passado o vôo todo pensando nela. Ligou dois dias depois de novo, falando de saudade, da vontade de estar junto. E ela se sentia da mesma forma. Estava feliz, ficou tocada… e triste, porque havia muitos obstáculos entre eles: distância, situação, trabalho. Era algo que não tinha como ser, como acontecer.
- Ele foi logo depois desse dia do bar?
- Não. Essa noite, que a princípio nem aconteceria, durou quase dois meses. Foi 16 de junho de 2001 e ele foi embora no final de julho, dia 30. Eles se entendiam como ninguém, havia várias coincidências entre eles… Nesse tempo, se viram uma vez por semana, depois duas, três e no final, quase todo dia. Era lindo. Ele ligava tarde, 10, 11 da noite e perguntava se podia ir lá dar um beijo nela: “Posso ir aí te dar um beijo?”. Claro que ela dizia que sim. Só que ele estava na beira do rio e ela na outra ponta da cidade. Estava cansado mas ia e ficava lá com ela, na frente da casa dela até 1, 2, 3 da manhã e tinha que acordar cedo, algo como 5 ou 6 pra estar no set às 7h. Ficavam lá, namorando, iam dançar (e essa era uma das melhores partes), iam pra bares, cinema… Foi tudo tão lindo e tão perfeito. Acho que se caísse uma bomba ao lado enquanto eles estivessem juntos, nem perceberiam…
(Silêncio) (Lágrimas)
- Mas acabou. Acabou o filme e ele teve que ir embora. Cada um seguiria com sua vida. No último dia, eles se encontraram pra gravar um programa de rádio com o diretor de produção. Na volta, ele pergunta se ela tinha que ir pra casa e ela fala que não. Então eles vão para um motel, ficam juntos, choram juntos… Quando ele a deixa em casa, os dois se despedem e, entre lágrimas, ele diz pra que ela não deixe ninguém magoá-la…
(Silêncio)
- Mas foi ele quem fez isso, anos depois, como ninguém mais fez.
- Ela disse isso?
- Eu vi isso. Aconteceu.
- O que aconteceu depois desse tempo, entre junho e julho? Depois que ele foi embora?
- Eu acho que foi algo maior que a vontade dos dois de fazer o que era certo. De deixar as coisas como estavam, de cada um seguir com sua vida. Eles nunca deixaram de se falar: fosse por telefone ou e-mail. Ele ligava, ela ligava. Gastaram horrores de telefone, e isso, pelo menos pra ela, pouco importava. Ia atrás dele onde ele estivesse. No ano seguinte, viajou pro Rio pra encontrar com ele. Ficou quase três semanas e só conseguiu encontrar com ele às vésperas de voltar pra casa. Ela já estava muito triste, só chorava, sempre esperando pra que ele arrumasse uma forma de se encontrarem, mas não dava ou ele tinha medo, sei lá, o fato é que nunca conseguia ir vê-la. Até que um dia eles se encontram num posto de gasolina, vão para um bar na Barra e lá ele diz que vai pra Londrina fazer um filme e a chama pra ir junto. Ela não tinha dinheiro pra isso, mas empresta e vai. Lá passam dias maravilhosos. Volta pra casa, mais apaixonada ainda. Daí em diante, a vida continua do mesmo jeito. Depois ele vai pra São Paulo fazer uma novela, ela vai também. Passam os anos, meses… E eles continuam essa história, não conseguem pôr fim, mesmo com ela, volta e meia, tentando pular fora, dizendo que vai sumir, pedindo pra ele deixá-la. Uma hora, ela volta a fazer contato, noutra, é ele quem toma a iniciativa. Até que, um dia, ela lhe manda um e-mail e não tem resposta. Espera e nada. E ele some completamente do mapa. Nem o telefone atende, nem mensagem responde. Some. Ela sofre, chora, mas aceita.
- Era hora de voltar à vida e continuar sozinha. Afasta tudo o que sente para um canto e segue em frente, até que um dia, três meses depois, ele manda um e-mail, pedindo desculpas pelo tempo sem notícias e dizendo que havia se separado, e precisava desse tempo para colocar as coisas no lugar.
- Se separou por causa dela?
- Não. Não acredito. Acho que as coisas não estavam bem lá do lado dele. Mas se separou e, aos poucos, ela e o Zé foram retomando o contato e, a relação foi renascendo e passou a outro estágio.
- Como ela se sentiu quando soube que ele tinha se separado?
- Acreditou que finalmente iria ter a chance de realizar, de viver o maior amor da sua vida.
- A história de vocês é linda. Quero ouvir mais dessa história no nosso próximo encontro.
- Lindo é ele. Lindo mesmo…
Fragmentos
- Por que você veio aqui?
- Porquê preciso de ajuda, de uma luz, um caminho ou, pelo menos, alguém pra me ouvir apenas e não pra me criticar.
-Estou aqui… O que você está sentindo agora?
(Silêncio)
- Um vazio… Um grande vazio no peito… Angústia e tristeza…
(Silêncio)
- E por que você está se sentindo assim?
(Silêncio)
- Porquê… porquê tenho medo de perder alguém.
- Seu namorado?
- Não.
- Marido?
- Não.
- Alguém da família?
- Não.
- Quem você tem medo de perder?
(Silêncio)
- Alguém de quem gosto muito.
(…)
- Ele é casado.
(…)
- O conheci em 2001, quando ele veio aqui fazer um filme. A gente se conheceu e um dia saiu pra conversar num bar e lá, a gente acabou ficando junto. Dias depois, eu soube que ele era casado. Aí ele me chamou pra sair e eu pensei: quer saber, daqui a pouco ele vai embora e isso não vai fazer mal nenhum. Ele vai viver a vida dele lá e eu a minha, aqui.
(Silêncio)
- Mas isso não aconteceu, não é mesmo?
- Não. Não mesmo.
- Vamos ter uma conversa sempre franca. Mas, antes de mais nada, eu quero dizer que eu não estou aqui pra te aconselhar ou dizer o que fazer. Eu não conheço esta pessoa que ainda é importante para você e por isso mesmo não posso fazer nenhum julgamento a respeito dela. Estou aqui para ouvir você e te ajudar a pensar. As decisões são suas e a resposta também será. Muitas vezes, a gente sabe a resposta, ela está dentro da gente, mas a gente nega. A negação também é uma forma de se proteger do sofrimento. Mas você precisa fazer perguntas a si mesma. Perguntar “por que”? Geralmente as pessoas evitam os “por ques” porque esta perguntinha nos leva a respostas e as respostas trazem soluções aos nossos problemas. Porque é simples. Às vezes, é simples demais. O que falta é coragem. Atitude. Dizer sim, dizer não, dizer nunca mais. Difícil é conter o abalo climático no planeta, tirar leite de pedra…
- Você provavelmente tem medo. Mas não se culpe, o medo é inerente ao ser humano. Não se culpe. Mas é preciso se livrar dele para poder seguir adiante, mesmo que isso signifique abdicar de certas coisas.
- Você, alguma vez, desde que tudo isso começou, já tentou se colocar como uma terceira pessoa? Como eu estou me colocando agora, como alguma amiga sua talvez já tenha se colocado? Tentar ver a sua história de fora, como um roteiro, um livro, um filme? Você vê esse filme passando na sua mente e te observa, observa ele, suas atitudes, seus gestos, suas maneiras. Como cada um reage a certas situações… Já tentou?
- Não. Nunca tentei.
- Por que?
- Porque… não sei. Eu acho que, quando a gente está envolvida em uma situação, assim, muito envolvida mesmo, como eu tô agora, a gente nem pensa nisso, em ver de fora. Quem está de fora dá opinião, que nem sempre a gente aceita. É mais fácil, pelo menos pra mim, pensar que, se eu fizesse mais um pouquinho, me esforçasse mais, tudo se resolveria… Não sei… É difícil se olhar em terceira pessoa, não é não?
- Hum-hum. Não é tão difícil, não. O que você precisa é TENTAR ver a história de fora. Mas se não conseguir, tudo bem. Tente, pelo menos, se perguntar “por que”. Você topa tentar?
- Tento, claro que tento. Estou aqui pra isso. Ter respostas.
- Você já as tem. Estão aí, dentro de você. Mas por hoje é só. Só vou te pedir uma coisa hoje. Pense em como isso começou e, quando a gente se encontrar de novo, me conte a história de duas pessoas que se conheceram e se envolveram fortemente. O fortemente foi por minha conta, porque pra durar desde 2001, deve ter sido algo muito forte. Mas se estas duas pessoas ainda se amam, se ambas se amaram reciprocamente um dia, isto a gente vai descobrir juntas. Você pode trazer nomes diferentes, porque fica mais fácil se isentar de sentimento. Combinado?
- Combinado.
- Entáo, até lá.
- Até. E obrigada por me ajudar.
Pergunta
Deus, Deus meu
Me diz do que é que eu tenho medo
Por que é que tanto dói
Por que isso me corrói
Por que, meu Deus?