- Por que você veio aqui?
- Porquê preciso de ajuda, de uma luz, um caminho ou, pelo menos, alguém pra me ouvir apenas e não pra me criticar.
-Estou aqui… O que você está sentindo agora?
(Silêncio)
- Um vazio… Um grande vazio no peito… Angústia e tristeza…
(Silêncio)
- E por que você está se sentindo assim?
(Silêncio)
- Porquê… porquê tenho medo de perder alguém.
- Seu namorado?
- Não.
- Marido?
- Não.
- Alguém da família?
- Não.
- Quem você tem medo de perder?
(Silêncio)
- Alguém de quem gosto muito.
(…)
- Ele é casado.
(…)
- O conheci em 2001, quando ele veio aqui fazer um filme. A gente se conheceu e um dia saiu pra conversar num bar e lá, a gente acabou ficando junto. Dias depois, eu soube que ele era casado. Aí ele me chamou pra sair e eu pensei: quer saber, daqui a pouco ele vai embora e isso não vai fazer mal nenhum. Ele vai viver a vida dele lá e eu a minha, aqui.
(Silêncio)
- Mas isso não aconteceu, não é mesmo?
- Não. Não mesmo.
- Vamos ter uma conversa sempre franca. Mas, antes de mais nada, eu quero dizer que eu não estou aqui pra te aconselhar ou dizer o que fazer. Eu não conheço esta pessoa que ainda é importante para você e por isso mesmo não posso fazer nenhum julgamento a respeito dela. Estou aqui para ouvir você e te ajudar a pensar. As decisões são suas e a resposta também será. Muitas vezes, a gente sabe a resposta, ela está dentro da gente, mas a gente nega. A negação também é uma forma de se proteger do sofrimento. Mas você precisa fazer perguntas a si mesma. Perguntar “por que”? Geralmente as pessoas evitam os “por ques” porque esta perguntinha nos leva a respostas e as respostas trazem soluções aos nossos problemas. Porque é simples. Às vezes, é simples demais. O que falta é coragem. Atitude. Dizer sim, dizer não, dizer nunca mais. Difícil é conter o abalo climático no planeta, tirar leite de pedra…
- Você provavelmente tem medo. Mas não se culpe, o medo é inerente ao ser humano. Não se culpe. Mas é preciso se livrar dele para poder seguir adiante, mesmo que isso signifique abdicar de certas coisas.
- Você, alguma vez, desde que tudo isso começou, já tentou se colocar como uma terceira pessoa? Como eu estou me colocando agora, como alguma amiga sua talvez já tenha se colocado? Tentar ver a sua história de fora, como um roteiro, um livro, um filme? Você vê esse filme passando na sua mente e te observa, observa ele, suas atitudes, seus gestos, suas maneiras. Como cada um reage a certas situações… Já tentou?
- Não. Nunca tentei.
- Por que?
- Porque… não sei. Eu acho que, quando a gente está envolvida em uma situação, assim, muito envolvida mesmo, como eu tô agora, a gente nem pensa nisso, em ver de fora. Quem está de fora dá opinião, que nem sempre a gente aceita. É mais fácil, pelo menos pra mim, pensar que, se eu fizesse mais um pouquinho, me esforçasse mais, tudo se resolveria… Não sei… É difícil se olhar em terceira pessoa, não é não?
- Hum-hum. Não é tão difícil, não. O que você precisa é TENTAR ver a história de fora. Mas se não conseguir, tudo bem. Tente, pelo menos, se perguntar “por que”. Você topa tentar?
- Tento, claro que tento. Estou aqui pra isso. Ter respostas.
- Você já as tem. Estão aí, dentro de você. Mas por hoje é só. Só vou te pedir uma coisa hoje. Pense em como isso começou e, quando a gente se encontrar de novo, me conte a história de duas pessoas que se conheceram e se envolveram fortemente. O fortemente foi por minha conta, porque pra durar desde 2001, deve ter sido algo muito forte. Mas se estas duas pessoas ainda se amam, se ambas se amaram reciprocamente um dia, isto a gente vai descobrir juntas. Você pode trazer nomes diferentes, porque fica mais fácil se isentar de sentimento. Combinado?
- Combinado.
- Entáo, até lá.
- Até. E obrigada por me ajudar.