- Como você está se sentindo hoje?
- Ainda triste.
- Pensou no que conversamos?
- Não tenho pensado em outra coisa.
- Quer me contar?
- A história é longa. Vou tentar te dar uma idéia geral, tentar resumir. Às vezes é meio difícil, porque tanta coisa aconteceu nesses anos todos…
- Olhe de fora… Não tenho pressa.
- Ok. Vou tentar. Em 2001, um amigo de uma garota… Garota… (risos…) Um amigo de uma garota de 27 anos a chamou para ir a uma festa num hotel. Era uma festa de uma equipe de cinema. Sempre havia festas, festas muito animadas. Ela foi com outra amiga e dançou a noite toda. Conheceu várias pessoas, gente da equipe, atores… Conheceu também um carinha e acabaram rolando uns beijinhos e só. A festa foi ótima. Entre essas pessoas que ela conheceu, havia um produtor. Era um cara bonito, uma carinha boa, sabe? Não devem ter trocado meia dúzia de palavras, pois foram apresentados e foi só aquele “oi, tudo bem, como vai?”.
- Um ou dois dias depois, a amiga dela, que tinha ficado com o assistente desse produtor, falou que ia sair com esse assistente e chamou a garota, e falou também que o produtor também ia, aquele que ela tinha conhecido e trocado a meia-dúzia de palavras. Ia ser no fim de semana, mas acabou que o fim de semana chegou e não rolou.
- Na semana seguinte, eles marcam novamente e elas vão. Eles iam pra uma festa de boi no hotel e depois encontrariam com as garotas num bar de rock. Eles chegam e os casais se dividem. Um beija e outro bate-papo. A Kátia, a primeira garota, passa a noite conversando e conhecendo o produtor, Zé, e fica encantada, mas no meio da noite, a amiga revela que ele é casado. Ela balança e resolve então ficar na sua. Mas o papo fica tão bom e a música ajuda que, quando ela menos espera, ganha um beijo daqueles, sabe? Um beijo de cinema. Foi uma noite inesquecível para ela, que levou pra casa, às 6 da manhã, uma música na cabeça e essa música seria a música que marcou essa relação.
- Que música era?
- Again, do Lenny Kravitz. Essa música fala algo mais ou menos assim: é como se um tivesse procurado pelo outro a vida toda, por onde essa pessoa andava… E agora que eles tinham se encontrado, ele se perguntava se eles se veriam novamente… É linda. E marcou essa relação. Nossa! Eles se beijavam no meio do bar como se não houvesse ninguém por perto. O engraçado é que não tinha sido nada falado, combinado, mas depois que ele foi embora, logo depois, uns dias depois, ele ligou pra ela dizendo que a música tinha tocado. Um pouco antes de ele ir embora, ela ouviu essa música e lembrou do dia do bar e ficou pensando nele. Pra ela, essa foi A MÚSICA. Pra ele, parece que também, porque ele lhe contou de vários lugares onde ele ia e a música tocava. Estava no carro e a música tocava. Saindo do supermercado e a música tocava. Logo que ele chegou na sua cidade, ligou acho que do aeroporto, dizendo que tinha passado o vôo todo pensando nela. Ligou dois dias depois de novo, falando de saudade, da vontade de estar junto. E ela se sentia da mesma forma. Estava feliz, ficou tocada… e triste, porque havia muitos obstáculos entre eles: distância, situação, trabalho. Era algo que não tinha como ser, como acontecer.
- Ele foi logo depois desse dia do bar?
- Não. Essa noite, que a princípio nem aconteceria, durou quase dois meses. Foi 16 de junho de 2001 e ele foi embora no final de julho, dia 30. Eles se entendiam como ninguém, havia várias coincidências entre eles… Nesse tempo, se viram uma vez por semana, depois duas, três e no final, quase todo dia. Era lindo. Ele ligava tarde, 10, 11 da noite e perguntava se podia ir lá dar um beijo nela: “Posso ir aí te dar um beijo?”. Claro que ela dizia que sim. Só que ele estava na beira do rio e ela na outra ponta da cidade. Estava cansado mas ia e ficava lá com ela, na frente da casa dela até 1, 2, 3 da manhã e tinha que acordar cedo, algo como 5 ou 6 pra estar no set às 7h. Ficavam lá, namorando, iam dançar (e essa era uma das melhores partes), iam pra bares, cinema… Foi tudo tão lindo e tão perfeito. Acho que se caísse uma bomba ao lado enquanto eles estivessem juntos, nem perceberiam…
(Silêncio) (Lágrimas)
- Mas acabou. Acabou o filme e ele teve que ir embora. Cada um seguiria com sua vida. No último dia, eles se encontraram pra gravar um programa de rádio com o diretor de produção. Na volta, ele pergunta se ela tinha que ir pra casa e ela fala que não. Então eles vão para um motel, ficam juntos, choram juntos… Quando ele a deixa em casa, os dois se despedem e, entre lágrimas, ele diz pra que ela não deixe ninguém magoá-la…
(Silêncio)
- Mas foi ele quem fez isso, anos depois, como ninguém mais fez.
- Ela disse isso?
- Eu vi isso. Aconteceu.
- O que aconteceu depois desse tempo, entre junho e julho? Depois que ele foi embora?
- Eu acho que foi algo maior que a vontade dos dois de fazer o que era certo. De deixar as coisas como estavam, de cada um seguir com sua vida. Eles nunca deixaram de se falar: fosse por telefone ou e-mail. Ele ligava, ela ligava. Gastaram horrores de telefone, e isso, pelo menos pra ela, pouco importava. Ia atrás dele onde ele estivesse. No ano seguinte, viajou pro Rio pra encontrar com ele. Ficou quase três semanas e só conseguiu encontrar com ele às vésperas de voltar pra casa. Ela já estava muito triste, só chorava, sempre esperando pra que ele arrumasse uma forma de se encontrarem, mas não dava ou ele tinha medo, sei lá, o fato é que nunca conseguia ir vê-la. Até que um dia eles se encontram num posto de gasolina, vão para um bar na Barra e lá ele diz que vai pra Londrina fazer um filme e a chama pra ir junto. Ela não tinha dinheiro pra isso, mas empresta e vai. Lá passam dias maravilhosos. Volta pra casa, mais apaixonada ainda. Daí em diante, a vida continua do mesmo jeito. Depois ele vai pra São Paulo fazer uma novela, ela vai também. Passam os anos, meses… E eles continuam essa história, não conseguem pôr fim, mesmo com ela, volta e meia, tentando pular fora, dizendo que vai sumir, pedindo pra ele deixá-la. Uma hora, ela volta a fazer contato, noutra, é ele quem toma a iniciativa. Até que, um dia, ela lhe manda um e-mail e não tem resposta. Espera e nada. E ele some completamente do mapa. Nem o telefone atende, nem mensagem responde. Some. Ela sofre, chora, mas aceita.
- Era hora de voltar à vida e continuar sozinha. Afasta tudo o que sente para um canto e segue em frente, até que um dia, três meses depois, ele manda um e-mail, pedindo desculpas pelo tempo sem notícias e dizendo que havia se separado, e precisava desse tempo para colocar as coisas no lugar.
- Se separou por causa dela?
- Não. Não acredito. Acho que as coisas não estavam bem lá do lado dele. Mas se separou e, aos poucos, ela e o Zé foram retomando o contato e, a relação foi renascendo e passou a outro estágio.
- Como ela se sentiu quando soube que ele tinha se separado?
- Acreditou que finalmente iria ter a chance de realizar, de viver o maior amor da sua vida.
- A história de vocês é linda. Quero ouvir mais dessa história no nosso próximo encontro.
- Lindo é ele. Lindo mesmo…