Fragmentos – III

- Como você está? Tudo bem?

- Esses dias têm sido muito ruins. Tenho tido a impressão que, desde que eu voltei de São Paulo e que forcei uma conversa lá no último dia, ele tem me evitado. Quando eu cheguei, ele não ligou, não mandou e-mail, nada. EU liguei, eu mandei um e-mail dizendo que estava com saudade e triste. Ele ainda estava lá, ficou por mais uma semana em São Paulo. Diferentemente de quando voltei do Rio em novembro, quando eu recebia e-mails todos os dias, e-mails falando de saudade, dessa vez foi diferente. Até demorar pra responder ele demorou, mesmo já não estando trabalhando. Mandei e-mail pra ele dizendo que ele está distante, parece que me evita… Sei lá, sabe, é o que eu sinto. Sei que a intuição não é uma ciência exata, mas eu não sou tola, e pra quem já teve outro tratamento, eu estou sentindo isso. Ele tá longe de mim, não só fisicamente… E eu tô muito, muito triste por isso. E essa tristeza só me consome e me faz mal, e ele não faz nada pra isso mudar.

- Tente não perder a razão, tente manter a calma. Vamos voltar à nossa história? Você se importa?

- Não, claro que não… Bom, eles voltaram a se falar depois da separação, falar com mais frequência, e agora não precisava ser às escondidas, porque ele estava livre. Livre daquela mulher horrorosa – e não é despeito, não – é uma criatura estranha, em vários sentidos. Em novembro, ele vai pra Boa Vista fazer um trabalho e a Kátia arruma um jeito de ir pra lá ficar com ele. Foi legal, até ela resolver fuçar no computador dele e descobrir uma carta que ele havia mandado pra um amigo, onde ele copiava uns e-mails trocados com a ex, e onde eles tentavam justificar o que levou cada um a separação, declarações de amor atrasadas, e isso a deixou confusa e triste – confusa porque estava com um cara que não tinha certeza se amava, porque não sabia o que ele ainda nutria pela ex, porque achava que estava sendo um consolo, um porto seguro no meio daquela tormenta pela qual ele tinha passado, e triste por tudo isso. Acabou revelando a ele, não dava pra esconder, acho que ele ficou chateado, mas acabaram se entendendo. Aí ela voltou pra casa e em seguida ele veio pra cá também, ficou um dia com ela, e foi quando conheceu uma das melhores amigas dela, Mariana. Daí em diante, eles retomaram o relacionamento, agora aberto, entre aspas, e eu explico melhor mais à frente.

- No ano seguinte, 2005, ela, louca de saudade, arruma um jeito de ir pro Rio: como estava desempregada, resolve ir comprar roupas e bijuterias pra vender aqui. Mesmo sem grana, compruo passagem parcelada, as mercadorias no cartão, vendou tudo e pagou as despesas. Hotel ela não ia pagar, foi ficou dele. Ele tava morando em Botafogo, e foi legal, ele foi buscá-la no aeroporto, deixou em casa, deu as dicas da área. Mais feliz era impossível ela estar. Mas, como ele estava trabalhando e o diabo não tenta só uma vez, ela foi novamente fuçar as coisas e pegou uma conversa dele recente com um amigo, falando de uma baiana que tinha ficado com ele mais ou menos um mês antes, numa conversa bem de homem pra homem, sabe? Ela quase morreu de raiva, porque ele dizia sempre que estava quieto, ligava dos lugares dizendo-se comportado, não tinha ficado com ninguém – ou seja, um santo – e aí ela leu aquilo. Quem não trai não fica dizendo que não traiu sem ser perguntado. Outra briga, novo desentendimento. Ela reconhecia que tinha feito algo muito feio e sabia, no fundo, que tinha perdido parte da confiança que ele depositava nela. Mesmo assim, apesar de todos esses tropeços, foi muito bacana.

- Um dia, numa conversa ao telefone, ele disse que tinha conversado com um amigo, Kim, eu acho, dizendo que falaram sobre uma viagem pra Margarita, e que ele ia falar com a “namorada” dele pra ver os custos da viagem porque ela já tinha ido. Ela, a namorada, era eu. Ou melhor, a Kátia. Ela ouviu aquilo e não acreditou e perguntou se era namorada dele. Acho que no fundo ela forçou aquilo, queria ouvir porque sua carência era mais forte que um touro. Tipo, qual das namoradas?, e ele falou que só tinha uma. Eu? Quem mais? A glória, né, pra uma mulher apaixonada… Ela foi fundo nisso, acreditou e encarou que isso era fato. E assim foram, até um outra viagem em novembro do mesmo ano, mas desta vez tudo estava estranho.  A essa altura, a Mariana, amiga dela, estava dividindo a casa com ele no Rio, ela tinha ido tentar a vida lá no meio do cinema e ele deu essa força. Amiga total, mas a insegurança veio e resolveu dividir o quarto com ela. Bateu, é claro, uma neura, afinal, um homem e uma mulher solteiros dividindo sozinhos o mesmo teto? Que mulher não fica insegura? Mas pra sorte dela, ela tinha uma amiga verdadeira e que a acompanha até hoje. Mas, voltando, dessa vez foi tudo estranho. Ele estava, sim, distante. Pareciam dois desconhecidos, mal se falavam. Transavam, não se amavam. Ele, né? Por dentro, ela sofria muito… Você acredita que uma noite, depois de transarem, em que ela perguntou se ele tinha ficado com outras mulheres, ele chegou ao absurdo de dizer pra ela pra não pensar, não levar em consideração isso, que era só sexo? Ou seja, transei, faz parte, mas não eu não te devo satisfação sobre isso. Foi isso que ela entendeu. Poxa!  Quanta insensibilidade por parte de quem está com você, sabendo o quando você gosta e sofre… E quando eu disse uma relação aberta no começo, entre aspas, agora explico: ele nunca a assumiu, mesmo quando ela estava no Rio. Nunca trouxe seus filhos em casa, saía pra passear com eles mas não a levava nem como amiga, e algumas noites que saíram, ficava longe boa parte da noite, só se aproximando no final, quando já estava meio alto. Às vezes andava na frente dela, e não ao seu lado, sem sequer segurar a sua mão. Fora uma noite em que ela ligou e ele atendeu estranho, quando estava na casa da ex pra cuidar dos filhos, parecia disfarçar que falava com alguém com quem tinha intimidade, ou era namorada… Acho que ele nunca pensou nela como namorada. Nunca. 

-  Mas aí ela voltou pra Manaus, ele foi pra Boa Vista fazer um trabalho, depois foi pra Brasília ver a irmã, e uma noite, alto de cerveja, ligou chamando ela pra ir pra Brasília, ficar com ele na casa da irmã. Ela falou que não ia por causa de todas as incertezas que rondavam a cabeça dela, questões de sentimentos e que não acreditava que ele gostasse dela. Dois dias antes, ela tinha colocado tudo, e-mails, fotos, discos e mandado pra casa dele no Rio. Ele não sabia. Minutos depois do telefonema, ele manda uma mensagem dizendo ‘caralho, quando é que você vai acreditar que eu te amo?’ Ela pensou: ‘talvez nunca, apesar de te amar tanto’. Então ele chegou em Manaus numa quinta, depois que acabou o trabalho de Boa Vista. No começo meio estranhos (ainda estranhos), ficaram juntos e no sábado ele foi embora pro Rio e lá encontrou tudo. Mandou e-mail dizendo que não teve coragem de ver tudo e estava muito triste com aquilo tudo. Conversaram muito por e-mail e foram se acertando aos poucos novamente, e se acertando, até chegarem ao ponto de ele a convidar pra ir pra lá, morar lá, a princípio não com ele, mas dividindo um apartamento com a Mariana, enquanto eles namorariam pra ‘testar’ estar mais junto, mais próximo, sentir como tudo se desenrolaria. Disse que ia rolar um trabalho, tentaria colocá-la pra trabalhar junto, enfim, planos que viraram a cabeça dela, que preparou o espírito da família pra ir embora e já estava vendo tudo pra viajar, transportadora, como arrumar um lugar pro cachorro, enfim, tudo. Até que uma coincidência a leva a um blog de uma jornalista piauiense e vê fotos dele, fotos, inclusive, íntimas. Caso que aconteceu em 2003 e, pra piorar, descobriu também que ela tinha acabado de estar na casa dele. Ela, a jornalista, fez um poema em que ela descrevia a casa dele em detalhes, da entrada da rua à foto da filha na parede. Foi um porrada tão grande que ela se descontrolou. Porque descobriu que, ao mesmo tempo em que ela tinha um relacionamento com ele, havia outra por aí, se não outras, que com certeza passaram pela mão dele. Ela mandou um milhão de e-mails numa única noite, trocou de nome, fez um estardalhaço, ligou e ele não atendeu… Esqueci de falar que, dias antes, ela ligava, mandava mensagens, e-mails e ele não retornava. Até que respondeu por e-mail dizendo que estava off porque precisava de um tempo. E pra completar, essa descoberta. Ela pirou, descompensou completamente. Carência, inseguraça, descoberta de infidelidade… Mas o que ela poderia esperar da relação com um cara que começou justamente com infidelidade. Foi o começo do fim…

Publicado em: on 11 Junho, 2009 at 5:44 am Deixe um comentário

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