- Ficaram sem se falar, cada um com seus motivos. Suas únicas palavras por e-mail demonstravam a raiva que ele sentiu, pois ficou puto com a atitude descompensada dela. Isso era início de dezembro. Suspeitas de encontros com a ogra ex, brigas por causa da anta jornalista nordestina, brigas, raiva, silêncio. Então passam os dias, chega o final do ano e ela decide ir pro Rio, tentar uma reconciliação. Ia aproveitar também pra fazer um concurso público lá, tentar garantir um emprego, afinal, eles tinham planos e não era aquela briguinha que ia mudar tudo. Natal, Ano Novo, e-mails frios… O ano começa, ela liga, pergunta onde fica a empresa, diz que está indo pra lá fazer o concurso e ele nem aí. Desligam. Dias depois, aproximadamente 10 dias antes de ela viajar, ela vê recados da Fiona na página dele e um recado apaixonado dele pra ela. Então ela liga na mesma hora pra ele e fala o que viu, pergunta se eles tinham voltado e, friamente, ele diz que sim. Pergunta a ele se era isso mesmo o que ele queria e ele diz solenemente que sim, que era isso que ele queria. Depois manda um e-mail explicando a volta, que a ex tinha ido lá na casa dele fazer não sei quê e viu as coisas que a Kátia tinha enviado em novembro: e-mails, cd’s, fotos, ficou puta, foi uma lavação de roupa suja, mas no final de tudo, eles decidiram voltar. E disse, encerrando, vamos tentar ser felizes. Quem? Ser o quê? E a Kátia? A Kátia se fudeu, desculpe a expressão. De passagem marcada e em cacos, não ia voltar atrás. Foi pro Rio e com o apoio de três grandes amigos, que estavam lá, aguentou firme e voltou decidida a deixar essa história pra trás. E assim o fez. Ela apagou o Zé da cabeça. Tirou da frente tudo o que podia fazê-la lembrar-se dele. Foi duro, foi difícil, mas ela conseguiu superar toda a dor, mágoa, decepção e seguiu em frente. Sabe, alguns amigos soltaram frases de efeito do tipo ‘você pulou uma fogueira e não sabia’, ou ‘há males que vem para o bem’, ‘antes só do que mal acompanhada’, todas super batidas, mas a tentativa era fazê-la sentir-se aliviada. Mas a mais legal de todas, foi a que ela mesma proferiu para uma amiga, mesmo querendo acreditar que nunca mais nada vida fosse vê-lo (mas no fundo ela achava que ia encontrá-lo novamente um dia – o mundo é tão pequeno e gira tanto – dali a um ou dez anos): ‘dor de barriga não dá só uma vez’.
- Por que você acha que ela pensou isso?
- Acho que, primeiramente, porque ela sentia muita raiva e sabia que o dia em que se encontrassem rolaria algo novamente. Talvez quisesse provar pra ele que não tinha acabado e fazê-lo sentir a culpa por ter feito que fez. Ele foi cruel com ela, foi injusto, não deu a mínima para os sentimentos dela. Pisou. Não levou em consideração os anos que ela se dedicou a ele, se fechando para outros relacionamentos e apostando tudo o que tinha nessa relação. Ele foi canalha. Mas acho que, no fundo, ela tinha esperança de essa relação, essa chama, reacendesse.
- Bom, se ele não deu a mínima para os sentimentos da mulher enquanto estava com você, mesmo não tendo se separado por sua causa, e você sabe que houve outras mulheres, você acha que ele se importaria com os seus?
Silêncio.
- Você acha que a briga de vocês foi motivo para eles voltarem, uma vez que vocês estavam cheios de planos? Por que você acha que ele voltou com ela?
- Não. Não acho que tenha sido motivo. Porque, se ele gostasse realmente de mim, me amasse, teríamos conversado. Por isso que eu acho que eles já estavam se encontrando antes de brigarmos. Ninguém volta do nada. Ela descobre tudo aquilo e tudo fica bem? Sabe, eu um dia acreditei realmente que ele me amava, por todas as vezes que disse, porque sempre me ligava, onde quer que estivesse, pelo que éramos quando estávamos juntos. Mas acho que ele nunca me amou mesmo, e se pudesse mensurar isso, botar na balança, a ex levava vantagem, por morar na mesma cidade, pelos filhos que tem com ele, por ser quem resolve as coisas em casa, porque não desiste, e apesar de não ser o que acha que é, bonita (parece a Fiona de longe – eu morro de rir quando vejo uma foto dela sentada num pufe azul – parece que está sentada no trono, aqueeele trono - vestida numa mortalha preta – é de um mal gosto pra roupas – o orkut era ótimo, antes de ser bloqueado) um poço de cultura e intelectualidade (talvez na tentativa de compensar alguma coisa que não teve na vida), discursa sobre física quântica que é uma maravilha, mas desconhece os poderes do sabão em pó no sutiã, ela está na vantagem. Enfim, eu vejo essa criatura estranha, que também me é estranha, dessa forma. Você pode até pensar, mas não me dizer, que isto é despeito. Não é, não. Eu até tenho todo o direito do despeito, por ter sido preterida. Mas não é, não. Se você pudesse ver o que eu já vi e ouvir o que eu já ouvi… Nunca tive nada contra ela, até porque ela foi tão vítima quanto eu. Mas ela falou absurdos de mim, que ele me bancava, pagava minhas contas e por isso vivia sem dinheiro. Prefiro ficar calada, o que não quer dizer que esteja consetindo. É que é perda de tempo responder a uma pessoa louca. Mas, respondendo a sua pergunta, ele voltou pra ela porque nunca deixou de gostar dela. Tudo o que eu vejo nela, em todos os sentidos, ele não vê, até porque estamos em diferentes campos de percepção.
- Então ali acabou. Mas eles voltaram a se ver então?
- Foi engraçado como voltaram a se falar. O motivo foi trabalho. Uma necessidade de trabalho fez eles voltarem a se falar, descompromissadamente. Setembro de 2007, quase dois anos depois. Primeiro formalmente, depois foram relaxando, e um dia ele solta que desde junho vinha lembrando, pensando nela. Ela não quis se empolgar. Em janeiro, ela foi pro Rio, de férias e eles marcaram de se ver, mas ele enrolou tanto, que só conseguiram se ver às vésperas de ela voltar pra Manaus. Foi uma meia hora de conversa no Largo do Machado, uma conversa nada a ver, sabe? Sabe quando você está diante de uma pessoa e não sabe o que falar? Falam somente de amenidades? Pois é, foi isso. Aí ela volta, gelada, atônita, confusa. Ele disse que sentiu o mesmo. O ano transcorreu, 2008, todo e eles continuaram as conversas virtuais, via e-mail ou msn e em novembro ela vai novamente pro Rio. A desculpa era comprar roupas e bijuterias pra vender, mas ela mal podia esperar pra encontrar com ele.
- E como foi dessa vez?
- Primeiro encontro? Tentaram ser leves, mas a cerveja pesou um pouco e ela acabou soltando os cachorros. Disse de toda a raiva e mágoa e dor que ela sentiu. Disse tudo o que ele a fez passar. Chorou, chorou, chorou. Foi quase uma catarse, porque quando tudo terminou, quando tudo aconteceu, ela não tinha conseguido chorar de tanto ódio, tanta coisa ruim que passou por dentro do coração dela. Ela nunca tinha sentido nada tão forte negativamente. E naquele momento ela chorou. Ele chorou. Houve declarações de todos os lados, pedidos de desculpas, abraços, beijos… Não me olhe assim…
- E você não entende como ela, a ex, o perdoou?
Silêncio.
- Ele tem um jeito muito doce, um olharzinho meio caidinho, derrete a gente. A voz mansa.
- Sei…
- Acabou que nos vimos várias vezes, sempre que era possível e eu descobri que nunca tinha deixado de gostar dele. Nunca tinha deixado de amá-lo. O que fiz foi pegar toda aquela cinza e empurrar pra debaixo do tapete. Ignorava toda vez que ele aparecia no meu pensamento, desviava a atenção. De repente renasceu. E foi muito bacana, todos os encontros foram bacanas, voltei apaixonadinha de novo. E agora, em maio, fiquei uma semana direto com ele, todos os dias, dormindo e acordando juntos, esperando ele chegar todos os dias… Essa convivência diária, ainda que curta, me deixou desestruturada na volta, porque voltei muito mal, sentindo que talvez ali, aqueles momentos fossem os últimos, porque tentei conversar, tentei ouvir alguma coisa dele, forcei uma conversa, mas ele continua exatamente como anos atrás: perdido, não-resolvido. Pelo menos é o que me diz, não sabe o que fazer, dar tempo pra ver como as coisas acontecem… Que diabos de coisas que nunca acontecem? E ainda acho que depois de forçar essa conversa, depois que voltei ele se afastou, fugiu de mim, ignorou meus emails, mensagens… Brigamos esses dias, por mail, pra variar. Isso é forma de brigar de gente normal??? Me diz??? Um relacionamento desses pode dar certo?
- Fez o que eu te sugeri?
- Fiz. Tive resposta de três pessoas. Só o amigo dele que não respondeu.
- E então, o que eles viram?
- Pode ficar pra próxima? Não, eles não disseram isso… (risos). Eu que tô perguntando. Tá acabando o meu tempo…
- Claro!