- Como você tá?
- Mais tranquila. Talvez porque a dor começou a passar. Aquela angústia está mais distante e eu tô começando a pensar mais racionalmente. Essa viagem que eu fiz, esse confronto pelo qual eu quis passar, foi a coisa mais certa. Eu precisava estar mais intensamente com ele pra poder sentir como tudo ficaria depois. Como a gente fez antes, em tantas idas e vindas por aí, que a gente se encontrava e depois, na volta, eu sentia que estava perdendo tudo. Ou mais ou menos assim, eu lutava pra chegar no topo da montanha, mas quando chegava, ou seja, na hora que seria de voltar pra casa feliz porque tinha atingido o meu objetivo, descobria que continuava muito, muito longe do cume. Era uma falsa alegria, que me contentava por pouco tempo, aliviava, mas depois tudo voltava. Passei por isso novamente esses dias, disse a ele o que sentia, o que pensava, mas ele não me disse nada, a não ser que tinha saudade também. Também é uma palavra que me mata, sabe? Eu te amo. Também. Tô com saudade. Também. Também, pra mim, dependendo da situação, me parece um complemento do tipo ‘vou dizer também porque me livro de mais encargos e assim tudo fica bem e ainda saio bonito na foto’.
- Sobre seus amigos…
- Melhores, impossíveis. São pessoas que me conhecem há muitos anos e gostam verdadeiramente de mim, do jeito que eu sou.
- Eles te responderam? Foi por e-mail que você enviou?
- Foi. Da mesma forma que eu enviei para o amigo dele, só que ao invés dele falar de mim, pedi que falasse sobre o Zé, como ele o via como amigo, pessoa, como gente, sabe? E pedi, já que ele conhece essa história, que ele me dissesse como ele via tudo isso. Mas ele não respondeu até agora. Acho que não vou mais esperar. Ele me disse que o Ivan demora mesmo a responder. Ivan é o nome dele. Acho que ele não respondeu porque também é amigo da outra lá. Sei lá, talvez meio saia-justa pra ele, falar contra ou a favor. Pra mim, tanto faz agora, porque eu tenho os meus amigos, que me responderam prontamente.
- Você não precisa me falar o que eles disseram, a não ser que você queira, fica a seu critério. Mas o que eles falaram te provocou alguma coisa?
- Como dizer… Eu não diria que o que eles me escreveram provocou uma revolução em mim e em tudo o que eu penso, porque meus pensamentos a respeito dessa história mudaram três anos atrás, quando ele escolheu me deixar pra trás. Quando ele teve a chance de escolher a primeira vez, ele não escolheu ficar comigo, e sim fazer um test-drive. Eu tô banalizando a coisa falando em test-drive, mas foi exatamente isso. E a segunda vez ele escolheu voltar pra ela. Mas eles falaram coisas que, mesmo sabendo, eu me nego a reconhecer. E são coisas que todo mundo vê, porque estão vendo do lado de fora. De dentro é muito mais difícil. Ontem mesmo eu me peguei conversando com uma amiga numa situação semelhante e falei pra ela as coisas que eles me falaram, mas não foi porque eles me falaram, porque eu só me toquei disso no final da conversa. Acho que são coisas que estão no meu inconsciente. Realidades que estão lá, mas eu escondo tudo pra não ver e não me questionar a respeito, porque tenho medo de perder aquilo que a gente tem.
- E o que vocês dois têm?
- A nossa história.
- O que vocês têm de fato?
Silêncio.
- O que vocês realmente têm?
- Nada.
- Nada?
- Nada. A gente se conheceu, se curtiu, teve encontros esporádicos, intensos, mas esporádicos, muitos momentos bacanas, divertidos, apaixonados, lugares diferentes, cidades diferentes…
- Se você fosse somar isso no calendário, em dias corridos, quantos tempo vocês ficaram juntos?
- Tirando o tempo que ele estava aqui quando a gente se conheceu, acho que não chega a dois meses, assim, se vendo todo dia, somando tudo.
- Quanto tempo tem essa história mesmo? 8 anos? Você falou em 2001?
- Sim, 8 anos. Teve aquele tempo de interrupção, mas ele sempre esteve aqui dentro.
- Então imagine que você tem uma expectativa de vida de 80 anos. Eu diria que você dedicou 1/10 da sua vida a uma pessoa que nunca fez nada por você. Ou fez algum sacrifício alguma vez? Sacrifício de verdade, não uma desculpa esfarrapada pra te encontrar algumas horas. Fez algo por você, algo que mostrasse que ele te amava ao menos próximo da intensidade que você o ama?
- Uma vez, duas, ele veio de Boa Vista pra cá. Ele trocou a passagem.
- Boa Vista é aqui do lado. Alguma vez ele veio do Rio pra te ver, da mesma forma como você saiu tantas vezes daqui, como fez agora mesmo largando trabalho, seu cachorro velhinho, suas coisas, questionamentos da família, dos amigos?
- Não.
- Quando ele deixou a mulher a primeira vez, não que isso seja de se orgulhar, mas foi por sua causa?
- Não.
- A quantas festas de casamento, aniversários de amigos vocês foram juntos, quantos domingos inteiros dedicados um ao outro vocês passaram? Algum dia dos namorados? Algum natal em família? Alguma queima de fogos no reveillon?
- Um aniversário de uma amiga na praia do Flamengo quando ele estava separado.
- Conhece os amigos dele? É amiga dos amigos dele?
- Não.
- Pode falar com ele no telefone a qualquer hora, de madrugada, de manhã cedo, quando sente saudade, ou dizer só um bom dia ao acordar?
- Não.
- Não vou perguntar se conhece os filhos dele porque você me contou da outra vez que ele não te levava junto quando ia encontrar com eles.
- Não.
- O que você tem medo de perder?
- Ele, a nossa relação…
- Mas você o tem?
- Não.
- E como você chama a relação que você tem com ele, que você tinha, o que é hoje?
- Não sei, porque não sou mulher, não sou namorada, não me considero também amante, porque não existe frequência. Eu sou só um caso dele?
- Não sei. Só VOCÊ sabe.
- Acho que sou um caso dele.
- Só mais uma pergunta por hoje: você acredita que ele ama você?
Silêncio.