- Sabe do que eu lembrei hoje? Quando a gente se conheceu, quando ele tava indo embora, faltavam poucos dias pra ele viajar, eu fui ao aeroporto com ele remarcar a passagem. Lá, ele fala com ela ao telefone, ele se afasta e acho que eles discutiram, ele estava agitado e, depois que desligou, quando se dirigia ao balcão da companhia aérea, ele olha pra mim e fala ‘quer ir pro Rio comigo?’, como se fosse um pedido de salvamento. Não sei, nem imagino o que falaram, mas eu senti que naquele momento eu era o que ele tinha de bom e, se pudesse, teria mesmo me levado com ele. Acho que foi a única vez que ele realmente me quis ao lado. Outra vez que também me fez pensar que ele realmente gostava de mim foi quando, na nossa última noite juntos, ele chora comigo, um choro calado, me abrançando. Ele gostava, sim, eu podia sentir.
- Mas tanta coisa passou, estamos tão distantes, temos realidades tão diferentes, vontades diferentes que… eu já não acredito mais se ele diz que me ama, eu já não iria mais pra lá só por causa dele, como teria ido em 2006, porque eu não acredito mais nele. Ele não viria pra cá por mim porque acho que não sou o sacrifício que vale à pena pra ele. Ele não faria isso.
- Eu acredito no que eu sinto, mas o que eu sinto não é suficiente para sustentar essa relação. Eu não acredito que, se estivéssemos juntos, ele seria fiel, porque essa não é uma característica dele. Ele é um cara bonito, inteligente, interessante e viaja por esse país o tempo todo e conhece mulheres de todas as cores, bonitas e interessantes também. E ele tem um jeito doce, carinha de quem precisa de carinho, todo sedutor quando quer… Você acha que eu acredito que, agora, nessa última viagem, em que ele ficou dois meses em São Paulo, ele não ficou com ninguém? Tenho certeza que sim e a minha maldita intuição também me diz isso, não é paranóia. Eu sei que ficar com ele não foi exclusividade minha. Talvez eu tenha sido o caso mais longo, talvez até o mais intenso, mas não o único. Só que eu soube foram três. Imagine os que ele ocultou (porque isso ele não falaria jamais). Os homens não são fiéis – muitos nem leais são – e ele não seria exceção. Se estivéssemos juntos e ele não tivesse essa vida viajante, essa vida tão cheia de gente nova, bonita e interessante, talvez eu me sentisse mais segura e tranquila. Mas não assim. E eu não gostaria de viver neurótica, cheia de ciúmes.
- A realidade é que, agora, eu já começo a ver uma luz no final do túnel. E não é esperança de uma vida a dois. Eu vejo que isso está mais e mais distante. É tão difícil pra gente até se falar ao telefone que os mínimos fios de esperança se desfazem a cada dia. Eu não posso nem falar com ele! Nós não temos nada! Eu não tenho nada. Não o tenho, não conheço nem sou amiga dos amigos dele, não seria aprovada pelos filhos dele, pelas irmãs, não vou ao cinema com ele, não vou ao teatro com ele, não vou dançar com ele, não passo domingos com ele, não acordo tarde com ele, não tenho nada nem com, nem dele. Nem fotos, que eu tanto peço, eu recebo dele. Parece que é uma forma de se proteger, sei lá.
- Eu preciso conversar com ele. Tenho tentado há dias e não tenho conseguido. Preciso dizer o que me sufoca, mas também o que me liberta. Eu preciso me libertar.
- Quando você me procurou a primeira vez, eu te disse que na maioria das vezes as respostas estão dentro da gente. Você estava angustiada e naquele momento era difícil enxergar qualquer coisa. Mas as respostas estão lá, a gente apenas se recusa a vê-las. Não que você não precisasse de ajuda e devesse seguir sozinha, com suas próprias pernas. Foi bom, é bom você se abrir. Mas só a partir do momento que você percebe que as coisas não estão bem e DECIDE mudar essa situação, é que você começa a ver tudo aquilo que estava obscuro, tudo aquilo que você se negava a reconhecer, pois achava que era menos dolorido viver à base de uma fantasia, de um sonho. O que você resolver fazer com a sua vida, você deve estar ciente de que foi decisão sua, não minha, não de seus amigos, de sua família, nem dele. Se decidir ficar do jeito que está, se decidir romper com tudo e seguir com sua nova vida depois dele. Quem sabe o melhor pra você é você mesma. É difícil tomar decisões, a gente reluta, mas depois que tomamos coragem, e as decisões acontecem, vem o alívio, apesar de que algumas decisões dóem e nos fazem sofrer. Mas tudo tem um tempo, inclusive a dor. Ela passa. E, além do mais, uma pessoa como você merece, no mínimo, paz.
- Minha cabeça fervilha. Há dias minha cabeça fervilha.
- E não é pra menos. É difícil. Mas você está bem melhor, mais lúcida, menos angustiada, menos triste.
- Mas eu tô triste.
- É que quando se aproxima o momento de tomarmos decisões, boas ou ruins, dependendo do lado em que a gente está, e não sabe se vai fazer a coisa certa, é natural sentir-se assim. A gente sempre perde alguma coisa quando escolhe, não é verdade?
- É…
- Quando for deitar, leve seus pensamentos para os melhores lugares, os melhores momentos e procure pensar de que tem alguém muito especial que gosta muito de você e não suportaria vê-la perdendo o seu brilho, a sua alegria e precisa que você esteja bem, sempre bem: você mesma.
- Pode ser que eu dê um tempo daqui. É errado? Você ficaria chateada?
- Você não precisa de mim. Você está bem. Mas quando quiser voltar, sempre que precisar, estou de portas e coração abertos.
-Só pra conversar…
- Sou só ouvidos.